Linguajar e emocionar os tempos de crise: transformando-se na convivência com professores

Rodrigo Camargo Aragão

Na formação de professores de línguas, há crises com experiências de aprendizagem da língua e do seu ensino, bem como com a profissão docente no Brasil. À luz do pensamento sistêmico de Humberto Maturana, argumento que a ideia de crise implica em inter-relações entre linguagem e emoção. Linguajar e emocionar fundamentam nossas relações e se entrelaçam em nossas conversações. Essas conversações quando reiteradas de maneira prolongada tendem a gerar o que podemos chamar aqui de cultura. Apoiado em pesquisas publicadas no Brasil, destaco o emocionar e o linguajar observado em estudos sobre formação inicial e em serviço de professores de línguas. Observo algumas conversações pautadas na cultura patriarcal-matriarcal em que relações de submissão fundamentam o emocionar e o linguajar. À luz desse quadro, traço algumas implicações e procuro dialogar com a cultura política das emoções e ensino de línguas. Examino também conversações reflexivas baseadas em culturas matrísticas e relações de confiança. Nessas relações encontramos acolhimento para visualizar e valorizar nossa legítima diversidade, conhecer o conhecer e, com isso, criar o comprometimento necessário com as implicações de nossa linguagem e emoções em nossas ações. Nesse processo, procuro apontar fenômenos sistêmicos na transformação com professores de línguas em culturas reflexivas que nos fortalecem para lidarmos com os tempos de crise.

Rodrigo Camargo Aragão

Doutor em Linguística, com estágio na Universidade de Sevilha, e pós-doutorado em Linguística Aplicada, ambos pelo POSLIN/UFMG. Professor dos Programas de Pós-graduação e Licenciatura em Letras da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). É líder do grupo de Pesquisa FORTE (UESC) e pesquisador do LALINTEC (UFMG). Pesquisa inter-relações entre linguagem e tecnologias; letramentos; e a interface emoções, identidades, e crenças na formação de professores e na aprendizagem de línguas. Tem interesse em desdobramentos de teorias da complexidade na Linguística Aplicada, especialmente, a Biologia do Conhecer de Maturana. Tem experiência na EAD e na avaliação e produção de materiais didáticos. Coordenou a implantação do curso de Letras/EaD da UESC de 2008 a 2010 e esteve cedido ao Instituto Anísio Teixeira como diretor de EAD do Estado da Bahia de 2011 a 2013. Coordenou o GT de Linguagens e Tecnologias da ANPOLL de 2014 a 2016. É sócio da ALAB e consultor da CAPES na área de EAD.

 

 

 

Uma abordagem transnacional de formação de professores de línguas: A experiência Glendon D-TEIL

Brian Morgan e Ian Martin

Os conferencistas discutirão seu trabalho no âmbito da disciplina Ensino de Inglês como uma Língua Internacional (D-TEIL) na Faculdade de Glendon. Este programa tem características peculiares. Em primeiro lugar, seu componente de prática em Havana e em Campo Grande insere os professores em formação em contextos locais, facilitando sua compreensão dos "vários inglês" aos quais eles precisam se adaptar. O programa é também plurilíngue: os alunos precisam saber espanhol ou português, além do conhecimento de inglês e de francês requerido pela Faculdade. Eles são também encorajados a usar essas línguas ao ensinar inglês. O programa, baseado em uma abordagem pós-método (cf. Kumaravadivelu) procura desenvolver nos alunos agência e conscientização sobre os contextos sócio-político-ideológicos que configuram as condições e práticas locais de ensino (MARTIN; MORGAN, 2015; MORGAN; MARTIN, 2014). Os conferencistas apresentarão dados gerados de alunos; tais como diários, e tarefas de aula; assim como exporão as características chave do programa em si. Finalmente, exporão suas reflexões a respeito dos pontos fortes e das limitações do modelo D-TEIL para o ensino de inglês dentro do tema do CLAFPL: cidadania crítica em tempos de crise.

Brian Morgan

Brian Morgan é professor no Departamento de Inglês de Glendon College, Universidade de York, em Toronto, Canadá. Ele leciona disciplinas de inglês para fins acadêmicos e de formação de professores. Na pós graduação, leciona Linguística Aplicada. Suas áreas de interesse de pesquisa incluem teorias críticas e seu potencial de implementação em variados contextos de ensino de inglês. Nos últimos anos, tem participado de diversas pesquisas e projetos de escrita ligando Glendon College e universidades e pesquisadores brasileiros. Ele é o editor convidado, em colaboração com Andréa Mattos, do número especial da Revista Brasileira de Linguística Aplicada, intitulado "Teorias e Práticas no Ensino Crítico de Línguas". Ele é também co-editor, juntamente com Alastair Pennycook e Ryuko Kubota, da série Critical Language and Literacy, publicada pela editora Multilingual Matters.



Ian Martin

É coordenador da disciplina de Ensino de Inglês como Língua Internacional no Departamento de Inglês do Collège Universitaire Glendon College, como integrante do corpo docente da Universidade de York, em Toronto, Canadá. Ele ensina disciplinas como Inglês como Segunda Língua e Políticas Linguísticas, assim como em cursos de formação de professores. Esteve no Brasil várias vezes, participando do projeto "Novos Letramentos", mas esta é sua primeira viagem até Belém. Ele a considera uma viagem importante, pois quando estava no 9º. ano, ele fez um teste vocacional que disse que ele deveria escolher a carreira de "explorador da Amazônia". Seus amig@s brasileir@s divertem-se com suas tentativas de falar português.

 

 

Português Língua de Acolhimento: o que a prática nos ensina?

Lúcia Maria de Assunção Barbosa

O ensino de Português para falantes de outras línguas ganha visibilidade em diferentes espaços geográficos dentro e fora do Brasil, sobretudo no recente contexto das chamadas "novas migrações" que coloca o País na posição de espaço de acolhimento. No entanto, uma breve análise da situação da maioria dos migrantes mostra que há desafios a serem superados, sobretudo no que se refere à implantação de políticas públicas direcionadas a esta realidade. Desse modo, pleiteio como elemento fundamental o reconhecimento de que a sobrevivência em novos espaços requer esforços para o uso da nova língua em situações distintas e sob diferentes ângulos. Assim, a aprendizagem de uma nova língua mostra-se desafiadora para o estabelecimento de uma autonomia que não se desvincule de aspectos culturais e identitários de quem chega e de quem acolhe. Parto igualmente da compreensão de que o caráter essencial, político e interdisciplinar que a aprendizagem de línguas contempla não pode prescindir de construtos ancorados na/pela Linguística Aplicada como auxiliares para quem aprende e para quem ensina. Nesta exposição, proponho mostrar como o conceito de língua de acolhimento, em diálogo com outras adjetivações, estabelece uma fusão produtiva para formação de professores e promoção de políticas públicas no contexto atual.

Lúcia Maria de Assunção Barbosa

Lúcia Maria de Assunção Barbosa é doutora em Estudos Portugueses, Brasileiros e da África Lusofônica pela Universidade Paris VIII. Concluiu estágio Pós-doutoral na Universidade Federal do Ceará, com visita acadêmica na Universidade de Aveiro – Portugal. É mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Atualmente é Professora Adjunta da Universidade de Brasília (UnB), onde leciona Português para Estrangeiros. Faz parte do corpo docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UnB e do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de São Carlos. É Pesquisadora da Rede PICNAB: Projeto Internacional de Investigação Científica Nantes, Aveiro e Brasília e do Réseau International d'Études Romanes (RIDeR). Em 2016, foi professora convidada na Universidade Paris VIII. É representante oficial de Português para Estrangeiros - da UnB - junto ao Programa Idiomas sem Fronteiras, no MEC. Na UnB, é responsável pelos Projetos de Pesquisa e Extensão de Ensino de Português Língua de Acolhimento e Coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refúgio - ACNUR. Atua principalmente nos seguintes temas: Português para Estrangeiros (PLE); Português Língua de Acolhimento (PLAc); Português como Língua Não Materna (PLNM); Migrações Internacionais Contemporâneas; Formação de Professores, Lexicultura, Ensino-aprendizagem de Línguas; Interculturalidade e Educação para as Relações Étnico-raciais.

Formação de professores indígenas no Brasil: experiências diversas em contextos distintos

Marilia de Nazaré Oliveira Ferreira

A formação de professores indígenas no Brasil é relativamente recente. Embora esses povos façam parte das leis brasileiras desde a colônia, somente com a Constituição de 1988 os direitos indígenas ficam de fato estabelecidos, porque esse documento reconheceu a capacidade civil desses brasileiros. Esse processo de formação reflete a diversidade existente no contexto em que as muitas línguas indígenas são faladas no país. Nos anos 70, a perspectiva de que o processo de educação formal indígena deveria envolver indígenas docentes fez com que surgissem os primeiros programas de formação, os quais foram estabelecidos por organizações não-governamentais, como é o caso do Acre. Nas décadas 80 e 90, devido a uma série de questões legais, o Estado passou a responsabilizar-se pela Educação Escolar Indígena, no ensino médio. Por esta razão, vários Programas de Formação de Professores Indígenas são executados pelas secretarias estaduais de educação. A formação superior seguiu essa disposição e os primeiros cursos de licenciatura foram realizados na UNEMAT, na UFRR, por exemplo. São essas experiências realizadas em contextos distintos que a presente conferência abordará.

Marilia de Nazaré Oliveira Ferreira

Doutora em Linguística pela UNICAMP e La Trobe University, Austrália. Realizou especialização/aperfeiçoamento no Linguistic Society of America (LSA), Ohio State University e participou de Curso Intensivo em Linguística Indígena na Universidade Federal de Goiás. Tem experiência como professora de ensino fundamental, médio e superior e como educadora popular. Atualmente é Professora Associada IV da Universidade Federal do Pará. Foi Coordenadora e Vice-Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras do Instituto de Letras e Comunicação da Universidade Federal do Pará. Foi coordenadora do PROFLETRAS na UFPA e Representante da Região Norte no Conselho Gestor do PROFLETRAS, tendo participado da implantação do Programa na UFPA. Foi Presidente da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN, gestão 2013-2015). Trabalhou na Coordenação de Programas Especiais, vinculada à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal do Pará. Atualmente lidera a Diretoria de Mobilidade Acadêmica Internacional, na Pró-Reitoria de Relações Internacionais. Foi eleita juntamente com outros membros do PPGL/UFPA para constituir a Primeira Diretoria do recém fundado Grupo de Estudos Linguísticos e Literários do Norte. Foi autora do projeto por meio do qual foi implantado o Programa de Educação Tutorial na Faculdade de Letras, no Instituto de Letras e Comunicação. Foi tutora do PET Letras/Língua Portuguesa. Participa como consultora ad hoc de órgãos de fomento e do conselho editorial de duas editoras universitárias. Tem trabalhado no campo da educação indígena, com assessoria a projeto de formação de professores indígenas voltados para suas comunidades, promovendo atividades de extensão que visam o acesso ao direito básico da educação (socio)linguística como elemento de formação cidadã e inclusiva na Região Amazônica. Suas principais áreas de interesse são Descrição de línguas indígenas amazônicas com ênfase em Morfossintaxe, Tipologia linguística, Teoria e Análise Linguística, além de questões relacionadas à Sociolinguística Educacional, à descrição e ao ensino de língua portuguesa e de LIBRAS.